domingo, 7 de março de 2010

Sobre religiões e a Bíblia



Sou cristã. Mas nunca senti necessidade de me definir como pertencente a esta ou àquela religião.

Gosto de ler a Bíblia, estudar, pesquisar, questionar e ir a fundo. Isso não significa indecisão ou falta de fé. Muito pelo contrário: tenho muita fé. Justamente por levar minha fé a sério, não consigo simplesmente aceitar tudo o que alguém afirma em nome de Deus.

Ao longo da vida, frequentei diferentes igrejas e conheci diferentes formas de viver a espiritualidade cristã. Em cada uma delas encontrei coisas que considerei valiosas e levei comigo aquilo que fez sentido à minha consciência, à minha razão e à minha fé.

Mas também encontrei coisas com as quais não concordo.

Não concordo com exageros. Não concordo com fanatismo. Não concordo com a ideia de que questionar seja falta de fé. Não concordo com uma espiritualidade que tenha medo do conhecimento, da ciência, da história ou da passagem do tempo.

E, sobretudo, tenho dificuldade com aquilo que se transforma em dogma simplesmente porque alguém determinou que não pode mais ser questionado.

Dogmas fazem parte da estrutura de várias tradições religiosas. São princípios considerados fundamentais e, dentro daquela tradição, não estão submetidos à livre contestação.

Eu respeito o direito de cada pessoa de aceitá-los.

Mas também acredito no meu direito de perguntar.

De investigar.

De estudar.

De discordar.

Minha fé não depende de desligar o pensamento.

Não acredito que Deus tenha dado ao ser humano inteligência, curiosidade e capacidade de discernimento para depois exigir que ele simplesmente deixe tudo isso do lado de fora da igreja.

Há uma frase frequentemente atribuída a Machado de Assis que sempre me provocou:

“Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento.”

Independentemente da autoria da frase, gosto da reflexão que ela provoca.

Fé e religião não são necessariamente a mesma coisa.

A religião é uma construção humana em torno da experiência do sagrado. Como toda construção humana, carrega beleza, sabedoria, tradição e experiências profundas — mas também carrega as marcas da cultura, da sociedade, da política e do tempo em que foi construída.

Por isso me interesso por religiões diferentes. Gosto de conhecer, estudar e respeitar outras tradições espirituais.

Acredito que diferentes povos, em diferentes épocas, buscaram compreender Deus, o transcendente e o sentido da existência utilizando a linguagem, os símbolos e a cultura que possuíam.

Isso não diminui minha fé cristã.

Ao contrário: amplia minha compreensão sobre o ser humano e sobre a própria experiência religiosa.

Minha referência espiritual continua sendo o cristianismo e, especialmente, os ensinamentos de Jesus.

Mas também não consigo olhar para a Bíblia como se ela tivesse simplesmente surgido pronta, completa e encadernada.

A Bíblia é também uma biblioteca.

Seus livros foram escritos em épocas diferentes, por autores e comunidades diferentes, em contextos históricos, políticos e culturais muito distintos. Muitos textos circularam oralmente antes de serem registrados por escrito; manuscritos foram copiados durante séculos, e diferentes comunidades religiosas reconheceram diferentes conjuntos de textos como sagrados.

O próprio cânone bíblico - isto é, o conjunto de livros reconhecidos como Escritura - foi se formando gradualmente.

Isso, para mim, não diminui a Bíblia.

Pelo contrário.

Torna seu estudo ainda mais fascinante.

Quero compreender o texto, mas também quero compreender quem o escreveu, para quem escreveu, em que época escreveu, qual era a realidade daquela sociedade e o que determinadas palavras significavam naquele contexto.

Tradução também é interpretação.

Por isso sempre tive interesse pelas línguas e pelos textos mais antigos disponíveis, pelas diferentes traduções, pelos evangelhos canônicos e também pelos escritos que ficaram fora do cânone.

Durante minha passagem pela Faculdade de Letras da UFJF, uma das coisas que mais despertaram meu interesse foi justamente perceber a Bíblia também como documento histórico e literário.

Ali compreendi ainda melhor que os textos bíblicos possuem uma história.

O cristianismo dos primeiros séculos não era um bloco homogêneo. Existiam comunidades com interpretações diferentes sobre Jesus, sobre sua natureza, sobre autoridade religiosa, sobre o papel das mulheres e sobre diversas questões teológicas.

Com o passar dos séculos, determinadas interpretações tornaram-se predominantes, enquanto outras foram consideradas heterodoxas ou heréticas.

Isso aconteceu dentro de processos religiosos, culturais e também políticos.

O Concílio de Niceia, realizado em 325, por exemplo, é muitas vezes apresentado popularmente como o momento em que Constantino teria escolhido quais livros entrariam na Bíblia. O reconhecimento dos livros que formariam o Novo Testamento ocorreu gradualmente e variou entre comunidades durante bastante tempo.

E justamente essa complexidade histórica me interessa.

Também me interessa conhecer os chamados textos apócrifos e outros documentos dos primeiros séculos do cristianismo.

Eles não precisam substituir os Evangelhos canônicos para terem valor histórico. Eles ajudam a mostrar a diversidade de ideias e comunidades que existiam entre os primeiros cristãos.

O Evangelho de Maria, por exemplo, apresenta Maria como uma discípula de destaque e revela que questões envolvendo autoridade, liderança e o papel das mulheres já estavam presentes em alguns grupos cristãos antigos.

A própria figura de Maria Madalena é um exemplo fascinante de como tradições podem se formar ao longo do tempo.

Durante muitos séculos, no cristianismo ocidental, Maria Madalena foi identificada com outras mulheres presentes nos Evangelhos e acabou ficando popularmente conhecida como prostituta arrependida.

Mas os Evangelhos não dizem que ela era prostituta.

Hoje, inclusive, a própria Igreja Católica a apresenta liturgicamente como discípula de Jesus, primeira testemunha da Ressurreição e “apóstola dos apóstolos”.

Outro exemplo está em textos tradicionalmente atribuídos ao apóstolo Paulo.

Algumas passagens que falam sobre a posição da mulher dentro da igreja causam enorme debate. A pesquisa bíblica contemporânea discute a autoria de algumas das chamadas cartas pastorais e procura compreender esses textos dentro das estruturas sociais e religiosas de seu tempo.

Para mim, tudo isso reforça uma convicção:

ler a Bíblia exige fé, mas também exige contexto.

Exige estudo.

Exige humildade.

E exige cuidado para não transformar nossas próprias interpretações em voz de Deus.

É muito fácil escolher um versículo isolado e usá-lo para justificar preconceitos, violência, submissão ou interesses humanos.

Talvez por isso eu volte tantas vezes aos Evangelhos.

Quando tenho dúvida sobre a essência da mensagem cristã, volto a Jesus.

E ali encontro algo extraordinariamente simples e, ao mesmo tempo, absurdamente difícil de colocar em prática.

Quando perguntado sobre os maiores mandamentos, Jesus respondeu com dois:


amar a Deus e amar o próximo como a si mesmo.


Para mim, é aí que está o centro.

Podemos conhecer teologia.

Podemos decorar versículos.

Podemos frequentar igrejas.

Podemos defender doutrinas.

Podemos saber explicar cada detalhe de nossa religião.

Mas se tudo isso não nos tornar mais capazes de amar, de agir com justiça, de ter compaixão, de respeitar o outro e de reconhecer a dignidade humana, alguma coisa se perdeu pelo caminho.

Por isso continuo estudando.

Continuo perguntando.

Continuo buscando.

Não porque minha fé seja fraca.

Mas justamente porque ela é importante demais para mim para que eu a entregue pronta nas mãos de outra pessoa.

Creio em Deus.

Creio em Jesus.

Creio profundamente no amor como centro da experiência cristã.

E acredito que fé e pensamento não são inimigos.

Talvez uma fé que nunca possa ser questionada seja apenas medo disfarçado de certeza.

A minha fé pode conviver com perguntas.

E talvez seja exatamente por isso que ela continue viva.

“Assim diz o Senhor: ‘Não se glorie o sábio em sua sabedoria, nem o forte em sua força, nem o rico em sua riqueza; mas quem se gloriar, glorie-se nisto: em compreender-me e conhecer-me, pois eu sou o Senhor e ajo com lealdade, com justiça e com retidão sobre a terra, pois é dessas coisas que me agrado.’”

— Jeremias 9:23-24